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AZUL ( A Zebra Ultrapassou o Leão) de Marta Cardoso

Eu era a zebra presa nas tuas presas –

cansada de ser caçada –

porque sempre que me apanhavas

era como se a minha vida não valesse de nada.


Correr não me levava a lado nenhum

Pois acabava sempre magoada.


A certo ponto, desisti e fiquei quieta

Esperando que não me notasses

E a dieta se tornasse aborrecida e obsoleta,

Mas eu já deveria saber que

Predadores são predadores porque vão atrás

De quem não se consegue defender.


Desistir nunca fora uma opção antes, eu juro

Eu estava exausta de correr tão depressa em vão

E parecer que corria em contramão

Até que finalmente, encontrei o azul-escuro:

Uma força interior nunca vista

Um muro duro à primeira vista

Mas feito de pura fúria e incúria.


Hoje, oiço o mar azul-claro

E observo o céu azul-escuro – em silêncio –

De muro rebaixado e banhada em paz interior,

Vivenciando o posfácio da minha história de vida,

Depois de ser julgada inferior e encher a cabeça de dúvida.


Já não sinto fúria, apenas pena

Porque a zebra ultrapassou o leão

Regenerei as minhas feridas de pele rasgada

E saí campeão.




 
 
 

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